Mulher Portuguesa - Livro O Martírio dos Suicidas


“Não resistais ao maligno; mas a qualquer que te bater na face direita oferece-lhe também a outra; e ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas... Portanto sede vós perfeitos como perfeito é vosso Pai Celeste.” Jesus (Mateus, 5. 39-41 e 48)



Um dia, em seleta reunião de psiquistas, apareceu um Espírito, que, comunicando-se pelo médium, revelava a mais extraordinária dor. Gritava aflitivamente, como se estivesse sendo martirizado. A custo foi acalmado um pouco; e a custo, entrecortadamente por gemidos e gritos, contou a causa do seu sofrer.
Disse o nome. Mulher. Fora quitandeira em uma das ruas de Alcântara, Lisboa. Casada. Tivera filhos. O marido era mau, mandrião, jogador e ébrio. Não trabalhava e obrigava-a a sustentá-lo e a prover às necessidades da família com os mesquinhos ganhos da sua pouco rendosa indústria. Para tê-la sob o seu jugo explorador, dava-lhe maus-tratos. Insultava-a, agredia-a. Quando isso não bastava, agredia os filhos, para fazê-la sofrer.
Arrastou assim uma vida de angústias durante anos. Cansou. A paciência esgotou-se-lhe. Começou a pensar em fugir ao martírio, suicidando-se. Acreditava que um instante de resolução, uma dor rápida, poria termo àquele longo arrastar de dores, àquele infernal suplício de todas as horas. Pensava porém nos filhos... Que seria deles? Eram os filhos o laço que a aguentava presa ao potro do sofrimento.
Surgiu a ocasião em que o laço quebrou. Não pôde mais. A fome e as dívidas vinham minando o lar. As facilidades, para que o seu carrasco pudesse levar vida sem trabalhar, diminuíam, e os maus-tratos aumentavam em proporção oposta à dessa diminuição. Os filhos estavam doentes e ela alquebrada, sem forças para trabalhar. Para tratar dos filhos, não podia agenciar a vida; para agenciar a vida, ficariam as criancinhas ao desamparo, em casa. Não podia mais. Decididamente, era melhor morrer.
Em seguida a uma das habituais altercações, acompanhada do espancamento martirizante, a pobre, louca de desespero, correu à linha de trem de Cascais, quando passava, veloz, junto ao cais d’Alcântara, e precipitou-se debaixo dele.
Ia acabar tudo, pensava.
Nesse instante supremo, lembrou-se dos filhos, mas já não podia recuar: o corpo, cedendo ao impulso, tombara sobre os “rails”. No mesmo instante, sentiu as rodas passarem sobre o corpo; ouviu ranger os ossos na trituração; suas carnes, dilaceradas, sacudiam-se, palpitantes; fragmentos dos membros rolaram com o impulso do choque que os decepara, e, coisa horrível, sentia que não morria. Via-se desfeita, esmagada, informe; ouvia o crepitar dos ossos; parecia que uma dor a torturava, composta de muitas dores desiguais, localizada cada uma em um dos membros espalhados no solo, jorrando sangue e palpitando em contrações...
Viu acudir gente, gritando. Notou que examinavam, compungidos, os seus restos. Viu chegarem as autoridades e, em seguida, um homem ajuntar todos os pedaços do seu corpo espostejado, e metê-los em um caixote de madeira.
Queria afastar-se do sítio, mas não podia. Gritava, mas ninguém lhe dava atenção. Agarrou-se a um polícia, pedindo-lhe que a levasse para casa, mas o polícia não a atendeu. Parecia até que não a sentia, nem ouvia. Não fez dela o mais ligeiro caso. Deixou-o e agarrou-se a outras pessoas. Sucedeu o mesmo. Ninguém lhe respondia; ninguém se importava com ela.
Entretanto, ouvia sempre o rodar do trem, sentia-o passar, esmagando, cortando e arrastando-lhe o corpo e ouvia o ruído do esmagar dos ossos. Era horrível!
As autoridades afastaram-se. Dois homens levaram-lhe o corpo esmigalhado em fragmentos.
Não compreendia como se via morta e em pedaços, ao mesmo tempo que lhe parecia estar viva e a sentir dores, muitas dores em todo o corpo.
Imaginou que dormisse e fosse vítima de um pesadelo. Mas, rapidamente, via toda a sua vida, até ao momento de arrojar-se para debaixo do trem, em procura do descanso da morte. Lembrava-se dos filhos. E, coisa espantosa! Parecia-lhe que só podia vê-los, e ao trem, ao seu corpo despedaçado, ao caixote com o seu cadáver em bocados, escorrendo sangue, que ia estendendo dois fios vermelhos pela rua fora... Não via mais nada.
A princípio, ainda ouvia os comentários das pessoas que tinham presenciado a cena do suicídio e as conjeturas que faziam sobre quem ela seria. No meio dos seus gritos, dizia-lhes quem era e onde morava; mas ninguém a atendia, todos a desprezavam. Nem a olhavam...
Pouco a pouco, foi deixando de ver e ouvir essa gente. Só lhe ficou o rodar do trem e os estalidos dos ossos.
Algum tempo depois, começou a notar ao redor pessoas que não conhecia, horrendamente feias, que riam dela, a empurravam, e lhe diziam graças e sarcasmos por ter querido fugir às dores da vida, matando-se.
Pareciam-lhe demônios, e apavorou-se, com o medo de que a viessem buscar para o inferno. Suplicou-lhes que a deixassem... Redobravam de risadas e de empurrões. O riso era de endoidecer... E não deixava de sentir a trituração do seu corpo, de ouvir o rodar do trem, a fratura dos ossos, o esmagar da carne!...
Não parava mais. Aqueles demônios, que tinham tomado conta dela, nunca mais a deixaram. Iam uns e vinham outros... Riam às gargalhadas, gemiam, berravam. Diziam-lhe que eram seus eternos companheiros e, iguais a ela, perdidos, porque também, se tinham matado por suas próprias mãos...
Sofriam tal qual ela, mas cada um de seu feitio. Havia momentos em que pareciam todos doidos furiosos. Cada um berrava à sua maneira. Ouvia-os, sentia-os, mas não os via. Só uma vez lhe parecera tê-los visto. Eram todos de negro, e faziam caretas de sofrimento. Parecia-lhe que alguns deles estavam esmagados, como vira o seu corpo; outros com a cara inchada; outros com fios de sangue a escorrer dos ouvidos!...
Era coisa do inferno e não quisera ver mais... Mas, quer fechasse os olhos, que não, via-os do mesmo modo. Para ela, era tudo noite escura; mas noite escura através da qual via os filhos, como os deixara, doentes e famintos; o trem a correr por cima dela, o seu corpo a partir-se pelo cortar das rodas... E o trem a passar sempre por cima das suas carnes... Não acabava nunca; não cessava mais o ruído, nem deixava de sentir dores, nem de ouvir o rijjjjj-rijjjjj dos ossos e da carne sendo esmagados.
Às vezes, sentia-se arrastada pelos companheiros, como se fosse arrebatada por um furacão, e assim ia ver os filhos a sofrerem, o marido mergulhado numa vida de abjeção...
E lá seguia depois, no redemoinho, crendo-se perdida para sempre.
A pobre contara estas coisas a pedaços, sufocada em gemidos, e revelando-as com exclamações de dor.
Mostrava-se desconfiada e receosa. Quando o dirigente da reunião procurava confortá-la, encaminhando-a para a resignação e para o arrependimento, chorava mais aflitivamente, e exclamava que não sabia resignar-se, nem arrepender-se.
Pedia que a deixassem ficar onde estava, isto é, no corpo do médium. Dizia que, ao menos, ali não sofria tantas dores, não aturava os demônios, nem se sentia com o corpo em bocados.
Quando não houve meio de prolongar mais a situação, que estava sendo pesada e penosíssima para todos, a pobre retirou-se, não sem ter deixado, numa exclamação final, reveladora de tanto penar, de tanta tristeza, a mais dolorosa impressão que a comunicação com Espíritos pode dar, em tais circunstâncias.
A exclamação foi:
- E é isto a morte, meu Deus!
Sim! Era aquilo a morte, em que ela havia procurado descanso!  Aquele inferno inconcebível!”

Obs:
A frase desta sofrida criatura: “exclamava que não sabia resignar-se, nem arrepender-se” dá uma pista sobre o poder que as nossas razões internas têm sobre o tamanho de nossos problemas.  A incapacidade de aceitar e compreender a realidade é em boa parte o que alimenta o desespero. Muitas vezes os problemas são grandes, mas ficam imensos se formos incapazes visualizá-los sob um prisma mais ampliado, que só o conhecimento da realidade espiritual e suas leis eternas podem nos dar.
E mais uma vez Jesus é a solução: “se alguém te bater na face direita oferece-lhe também a outra”, ou seja, se a dor é o único prêmio que o mal alheio te oferece, responda com resignação, perdão e fé em Deus. E mais adiante, nesta mesma passagem, Ele diz: “Portanto, sede perfeitos como perfeito é o Vosso Pai que estás no céu.”  
É preciso considerar também que sempre há outras soluções para tudo de ruim que acontece conosco que não a equivocada opção do suicídio. Resignar-se significa de fato aceitar e compreender o mal que nos ocorre na mesma medida que aceito e compreendo o meu direito de me contrapor a ele pela busca permanente da solução correta e viável dentro de uma visão ético-espiritual. Alguns males perduram apenas por desconhecimento de sua solução adequada por parte de quem sofre e que, claro, Deus possui.
A submissão a Deus é o contrário da revolta. Ela nos aproxima Dele e, claro, nos faz aceitá-lo, o que acaba sendo o primeiro passo para aceitar a realidade mesmo ruim que nos cerca, pois que tudo que existe está sob a vigilância e a permissão sábia Dele. É preciso lembrar mais uma vez que algumas situações são momentaneamente inalteráveis no âmbito externo, mas a forma de a encararmos, ou seja, o sentimento interno que utilizo para lidar com ela é escolha minha. 
Assim, é preciso abrirmos as comportas que represam a luz que vem do Alto e de Deus para que ela invada o nosso interior para diluir o lago amorfo de nossas mágoas e ódios internos. Do mesmo jeito que viver ou morrer, pertence a nós a escolha de abrir, ou não, as comportas internas para que a “água viva” de Jesus penetre o nosso eu interno e venha transformar as águas escuras de nosso interior, apontando novos caminhos e trazendo surpreendentes soluções até então desconhecidas. Esse é o maior socorro, senão o único, que podemos dispor nas horas de desespero.





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