Pelo Espírito Hermes Fontes (1830 - 1930)

Um dia eu me senti como se fora
O infeliz assevero legendário
E andei no mundo triste e solitário,
Sentindo frio n’alma sofredora.

Sonhei na morte a estrada salvadora
Ao meu grande martírio imaginário,
E sem notar o meu trágico desvário,
Afundei-me na treva aterradora.

Tantas vezes a minh’alma enferma e aflita
Sonhou a paz nirvânica, infinita,
E apenas tenho a dor que me devora.

Ó Senhor, abrandai as minhas penas,
Eu sou inda, entre as lágrimas terrenas,
Uma lama mortal que sofre e chora.

                      *

Antes a nossa vida terminasse
No turbilhão de pó da sepultura,
Antes a morte fosse a noite escura
Onde o ser nunca mais se despertasse.

Ah! se a nossa existência se acabasse,
Cessaria de certo a desventura!
Contudo a vida é o bem que se procura,
Morrer é ver a vida face a face.

Todavia, se sofro, ó Deus clemente,
É que sou criminoso, o delinquente,
E o enfermo sem paz e sem saúde.

Perdoai a minh’alma se blasfemo,
Ponde em meu coração o dom supremo
Da humildade que é auréola da virtude.


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