SÍNTESE


Nesta postagem procuraremos fazer um resumo sobre as causas e consequências relatadas pelos espíritos sobre o suicídio.
O véu que encobre a realidade extracorpórea está em grande parte levantado pela doutrina espírita. Luzes foram postas sobre as trevas de nossa ignorância. Tolo será aquele que delas não fizer o uso adequado. Aliás, todo conhecimento, à semelhança de um farol de carro, é luz para se enxergar mais ao longe e elemento indispensável de proteção.
Veremos que a dor por mais insuportável que possa parecer sempre estará na iminência de atingir características mais intensas quando, ao invés de nos propormos a batalhar pela sua aceitação, solução e cura, optarmos pela medida extrema da morte.
Por isso, não se vai a um lugar sem antes saber o que tem lá. E é nesta linha que os espíritos procuram nos auxiliar, cansados que estão de ver o triunfo quase completo da ignorância sobre aqueles que justamente deveriam acabar com ela: nós seres humanos, tidos como racionais.
O problema é que com relação a certos lugares só é possível saber realmente como é, indo! E esse é o caso do mundo espiritual. Contudo, sempre dá para se ter uma ideia. Ou será que panfletos de agências de viagem não servem para nada?!
A intenção de nos alertar por parte de quem está do lado de lá sempre existiu. Isso se deu por profetas, iluminados, etc. Só que sempre fica a dúvida: mas e se porventura tal realidade não existir, ou seja, tudo acabar com a morte do corpo? Enfim, e se a alma não passar apenas de um conjunto de sinapses cerebrais que deixará de existir com o fim do dito causador: o cérebro?
Essa é a crença materialista, a qual não deixa de ter lá seu fundamento, já que, até hoje, nenhum médico cirurgião encontrou dentro de um corpo humano ainda vivo algo além de matéria em formato de órgãos e secreções.  
Mas será que não seria arriscar demais, no caso do suicídio, buscar a morte sem antes adotar um critério mais seguro e não movido apenas pela constatação superficial de algo feita por outrem? Afinal de contas, há muito em jogo!
Um cego de nascença tem o direito de não acreditar na existência da luz. Contudo, ouviria muitos tentarem convencê-lo do contrário. E se no campo da razão fosse ele leal, poderia até não se convencer, mas ao menos acalentaria a possibilidade de existir algo que ao tocar qualquer objeto é refletido para toda parte e, quando esse mesmo reflexo toca o olho saudável de alguém, forma imagens tridimensionais no cérebro deste, ou simplesmente a luz.
Da mesma forma o barulho sobre a existência de Deus e de um mundo espiritual é muito grande para não se admitir ao menos a possibilidade.
Então, conclui-se que é no mínimo prudente ouvir – claro, sempre pelo filtro da razão –, quais são os fundamentos daquilo, que para uns é alucinação, para outros é suspeita e para muitos é fé.
Enfim, indagar: donde vêm essas ideias sobre o transcendental? Quais são as provas, visto que, como já dito, não é de uma visão in loco do interior do corpo humano? Que espécie de “alucinação” coletiva seria esta que gera toda uma rica e criativa gama de seres e fenômenos transcendentais, tais como deuses, fantasmas, céu, inferno, dimensões, etc.? Tudo isso é inventividade da mente humana ou realidade?
E mais ainda: como ficam as curas atribuídas à fé e tidas por milagrosas? Vêm simplesmente das sinapses cerebrais, ou seja, do poder sugestivo da mente material? Podem até vir, mas só isso já é fantástico demais para não se buscar entender o porquê das dores e das suas possibilidades de cura.
Mas como este texto visa trazer apenas um resumo daquilo que os espíritos informam sobre a temática suicídio, vamos ao que interessa, sem ter a pretensão de ser o possuidor de todas as respostas para todas as circunstâncias e situações.
Faremos uma viagem no tempo, abarcando passado, presente e futuro. Claro, considerando como presente a nossa atual condição de seres encarnados, pois que, como é óbvio, o que é presente para nós encarnados, para um espírito desencarnado já é passado.
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PASSADO – CAUSAS [clique aqui]:

1º) Existir [clique aqui];
2º) Nascer [clique aqui];
3º) Circunstâncias Reflexas [clique aqui];
4º) Vergonha e Culpa [clique aqui];
5º) Vida Intrauterina, Infância e Juventude [clique aqui].


PRESENTE – CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS [clique aqui]:

1º) Obsessão [clique aqui];
2º) Ilusão [clique aqui];
3º) Transtornos Mentais [clique aqui];
4º) Vícios [clique aqui].


FUTURO – CONSEQUÊNCIAS [clique aqui]

FUTURO PRÓXIMO – ERRATICIDADE [clique aqui]:

1º) Imortalidade [clique aqui];
2º) Repercussão no Corpo Espiritual [clique aqui];
3º) Repercussão no Emocional [clique aqui];
4º) Repercussão em Terceiros [clique aqui];
5º) Umbral [clique aqui];
6º) Escravidão [clique aqui].


FUTURO REMOTO – REENCARNAÇÃO [clique aqui]:

1º) Deformidades Físicas [clique aqui];
2º) Emoções em Desequilíbrio [clique aqui];
3º) Reencarnações Curtas [clique aqui];
4º) Recapitulação de Experiências [clique aqui];
5º) Amadurecimento Espiritual [clique aqui].


CONCLUSÃO

Tudo o que foi dito nas causas e consequências acima discriminadas – embora não corresponda ao todo –, é para entendermos que nós mesmos somos construtores de nosso destino. Não há nada que não corresponda a nossa única e exclusiva responsabilidade.
Enquanto Deus nos colocou numa escola (escola da vida) com o único objetivo de sairmos dela mais amorosos e sábios, nós optamos em transformá-la em um hospital, muitas das vezes de loucos.
Somos hoje o resultado do que plantamos ontem, e o amanhã dependerá do hoje. Simples assim!
Enquanto não vencermos as provas que nos são dadas nesta escola da vida para delas nos formarmos o quanto antes, estaremos sujeitos ao contato de seres tão ignorantes quanto nós próprios ainda somos. Esse contato excessivo com a ignorância pode nos fazer crer que o bem e o amor não existem, mas se o filhote de uma ave não procurar olhar para além de seu ninho, nunca se sentirá atraído para o voo. O espiritismo é uma lente para enxergar além do ninho.
Assim, lembremo-nos do convite de Jesus:

Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e toda sua justiça, e todas as demais coisas vos serão dadas em acréscimo.” (Mateus 6:33).

Que pode ser traduzido assim: Buscai em primeiro lugar a sua felicidade própria conforme Deus a estabeleceu, e não seja ingrato, e todas as soluções e respostas aos seus anseios lhe serão dadas no tempo oportuno.


EXORTAÇÃO FINAL

“Eu não vos deixarei órfãos.”  (João 14:18)

Filhos e filhas de Deus.
Nós da espiritualidade sabemos dos imensos desafios que têm que passar nesta vida.
Mas vos pedimos cautela e critério mais acentuados para que não ponham a perder a vós mesmos.
O suicídio é o maior enganador de todos os tempos. Não vos livra de nada. Só aumenta – e muito – vossas dores.
Buscai aquele que não vos engana nunca. Que fez da verdade sua melhor amiga.
Eliminai de vossas mentes ainda imaturas a ideia de morte, posto que esta não existe.
Só é garantia para o próprio bem futuro quem busca estar de bem hoje com a Lei Divina.
Isso mesmo, vocês estão todos subordinados a uma Lei infalível. Ela é autoaplicável. É lei e juiz ao mesmo tempo e da qual ninguém escapa.
Essa mesma Lei manda que cuidem de vocês, mesmo que mais ninguém o faça.
Respeitem o tempo estabelecido a cada um, bem como o tempo necessário para a solução de cada problema, já que não existe problema que o tempo não resolva.
Aceitem a ajuda que sempre vem de Deus, que pode parecer imperceptível num primeiro momento, mas que a ninguém é negada.
As soluções dadas pelo Pai, senão são as que concordamos, com certeza são as que precisamos.
Orem ao Pai e sentirão sua presença a lhes apontar o caminho para a vossa salvação e felicidade.
Ninguém está sozinho neste mundo, nem aquele que optou por este caminho.
Vivam, vivam intensamente! Mas o intensamente do espírito, do amor, da evolução, e não se deixem abater, pois que um soldado se faz na luta e um filho somente sucederá ao pai se por este for educado.
Muita paz. 


Observação: esta exortação final é uma mensagem espiritual trazida a nós por entidade amiga que dispensa a necessidade de identificação.


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O Sentido do Jogo







Sexualidade, obsessão, depressão e suicídio



O texto a seguir é extraído do livro Tormentos da Obsessão, psicografado pelo médium Divaldo Franco, capítulo: "Contato Precioso", no qual o espírito e autor da obra Manoel Philomeno de Miranda encontra a figura de Almério, que fora espírita e médium suicida em sua derradeira encarnação, detentor de graves conflitos internos no campo da sexualidade, bem como vítima de tão ferrenha quão dramática obsessão espiritual. O encontro se dá no Hospital Esperança, que é uma instituição fundada pelo célebre espírito de Eurípedes Barsanulfo, também conhecido como O Apóstolo da Caridade, e que se encontra sediada no plano espiritual. Com características de um sanatório, o referido hospital visa acolher, tratar e educar almas que, no dizer do autor espiritual, foram: "vítimas da própria incúria, tornando-se um laboratório vivo e pulsante para a análise profunda das alienações espirituais". Esse é o caso de Almério, mais um personagem do palco da vida a retratar quão grande é o poder de nossas escolhas, as quais podem nos presentear um dia com as asas libertadoras de um anjo ou, desde já, prender-nos nos grilhões da dor e do arrependimento. Aproveitemos as valiosas lições que esta leitura nos traz:


CONTATO PRECIOSO


No dia seguinte, ainda vibrando de emoção pelas lições recebidas na véspera, dirigi-me ao Sanatório Esperança, estuante de alegria, por considerar excepcional a oportunidade de aprendizagem naquele reduto de bênçãos que o amor havia erguido para auxiliar os combalidos e fracassados nas lutas espirituais da Terra.
Conhecia, através de referências, desde há muito, aquele Nosocômio, de que ouvia falar em conversações habituais com diversos amigos. Todavia, por reconhecer a precariedade dos meus conhecimentos em torno das doutrinas psíquicas e das conquistas realizadas por especialistas dessa área, nunca me atrevera a solicitar oportunidade para conhecer mais de perto as enobrecedoras realizações que ali tinham lugar.
Embora soubesse superficialmente da finalidade a que se destinava, ignorava os métodos e as terapêuticas utilizadas no tratamento dos pacientes espirituais. Eram, portanto, compreensíveis, a euforia e expectativa que me assaltavam.
O dia estava esplêndido, banhado de suave luz e agradável temperatura, quando, vencendo alguma distância e atravessando os jardins bem cuidados, enriquecidos de flores e arbustos formosos, dei entrada no agradável hall, dirigindo-me à recepção.
Solicitando o encontro com Dr. Ignácio, fui informado que ele me esperava no seu gabinete, que me foi gentilmente indicado. Um voluntário, que ali se encontrava, ofereceu-se para conduzir-me à sala, elucidando-me que estava em estágio, na fase do atendimento, a fim de preparar-se para iniciar estudos especiais sobre a problemática do comportamento humano, quando se encontrasse habilitado.
Muito simpático, logo informou-me que houvera desencarnado, fazia vinte anos, havendo sido atendido naquele Nosocômio, onde despertara em lamentável estado de perturbação espiritual, de que se foi libertando, graças ao amparo e empenho dos médicos e enfermeiros que o atenderam, até que pôde ensaiar os primeiros passos pelo ambiente, dando-se conta da realidade da vida e procurando adaptar-se ao novo habitat, embora as saudades dilaceradoras que conservava em relação à família e aos seres amigos, bem como às tarefas interrompidas que ficaram no domicílio carnal.
Escutava-o, atento, como se estivesse recordando-me dos primeiros tempos, quando chegara àquela Comunidade, recambiado pela morte à Pátria de origem.
Gentil e jovial, elucidou-me que houvera sido vítima de si mesmo, porquanto, portador de mediunidade psicofônica, tivera ensejo de travar contato com a Doutrina codificada por Allan Kardec, porém, por negligência e perturbação, nunca se interessara em aprofundar estudos e educar o comportamento que, embora não fosse vulgar, igualmente não se fazia portador de títulos de enobrecimento.
Consorciando-se com uma jovem que acreditava ser-lhe alma gêmea, sentiu-se amparado emocionalmente, de maneira a manter o equilíbrio sexual, que lhe constituía motivo de desarmonia antes do matrimônio, dificultando-lhe preservar-se fiel ao compromisso mediúnico, que abraçava desde os dezessete anos, quando recém-saído de um tormento obsessivo simples...
Nesse ínterim, chegamos à ante-sala do diretor daquela área, específica para os obsidiados desencarnados, fazendo-nos anunciar, e aguardando o convite para sermos recebidos. Como o infatigável dirigente se encontrasse em reunião, acomodamo-nos, e o novo amigo prosseguiu:
- Após haver passado por diferentes terapias de adaptação, estou agora sendo utilizado na recepção para acompanhamento de visitantes, preparando-me para futuros cometimentos.
Sinceramente sensibilizado pela sua gentileza, apresentei-me com breves considerações, e continuamos a agradável conversação.
- Chamo-me Almério - informou-me com um sorriso afável - e fui uma vítima a mais da própria leviandade, no trato com os tesouros da vida espiritual, razão porque fui recolhido a este Hospital.
"Recordo-me que, desde criança, vez por outra, era acometido de clarividências, detectando seres infantis, que se me acercavam em festa, convivendo com os mesmos por alguns minutos. Outras vezes, defrontava monstros pavorosos que me ameaçavam, levando-me ao desespero e a desmaios, dos quais acordava banhado por álgido suor. O carinho vigilante de minha mãe sempre me socorria, defendendo-me desses fantasmas terrificantes. Por algum breve período tive a impressão de que amainara a ocorrência, para, a partir dos catorze anos, distúrbios nervosos tomarem-me com certa periodicidade, fazendo-me tremer e quase convulsionar. Fui levado ao médico que, após exames superficiais, atribuiu tratar-se de epilepsia, havendo-me receitado medicamentos que mais me atordoavam, e que, de alguma forma, diminuíam aquele desagradável tormento. Tomando conhecimento do que sucedia comigo, uma vizinha nossa sugeriu aos meus pais que me encaminhassem a um Centro Espírita, por acreditar que se tratava de um distúrbio no campo mediúnico, portanto, de uma obsessão que estivesse em processo de instalação. Embora meus genitores estivessem vinculados à religião católica, não titubearam, conduzindo-me ao Núcleo que fora indicado, por ser aquele da frequência da generosa amiga."
Almério fez uma pausa, como se estivesse recapitulando páginas importantes do livro da sua existência mais recente, após o que, tranquilamente continuou:
-  A primeira visita foi inesquecível, porque, atendido carinhosamente pela diretora da Casa, enquanto conversávamos fui acometido da crise, facilitando-lhe o diagnóstico espiritual. Conhecedora dos tormentos da obsessão, D. Clarice usou de palavras bondosas para com o perturbador, enquanto me aplicava a bio-energia através de passes vigorosos em clima de oração. De imediato, retornei ao estado de paz, de modo que a entrevista foi encerrada, após ser-me oferecida a terapia para o equilíbrio da saúde, que consistia em fazer parte de um grupo juvenil de estudos espíritas, a fim de que me pudesse iniciar no conhecimento da Doutrina, após o que, e somente então, me seria permitido participar das atividades mediúnicas.
"Na minha condição juvenil, felizmente, não tivera tempo para derrapar nas viciações que estão ao alcance da mocidade. Não obstante, cometera os equívocos pertinentes à condição de jovem, por fazerem parte do cardápio comportamental destes tumultuados dias da Humanidade.
"A mediunidade, em razão da frequência à Instituição Espírita, talvez, pelo clima psíquico ali existente, irrompeu com melhor definição, assegurando-me tratar-se de um compromisso sério, que deveria abraçar, mas, para o qual seria necessário abandonar a mesa farta dos prazeres, que se encontrava diante de mim, convidativa, e que eu não estava disposto a fazê-lo. Preparava-me para o vestibular, numa tentativa de conseguir uma vaga na Faculdade de Farmácia, quando fui acometido de uma crise mais forte, que me deixou prostrado, acamado, exigindo a presença da devotada diretora da Casa Espírita, que me socorreu com fluidoterapia e palavras de muito encorajamento, recomendando-me a leitura saudável de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, para robustecer-me moralmente, ajudando-me a superar a agressão espiritual.
"A Entidade, que insistia em me afligir, estava-me vinculada por fortes laços do passado próximo, quando fora molestada pela minha irresponsabilidade e não se encontrava interessada em liberar-me com facilidade da sua sujeição. Tornava-se indispensável que, mediante a minha reforma íntima demonstrasse-lhe a mudança que se operara dentro de mim, e do esforço empreendido para reparar os males que lhe houvera feito. Esse programa de iluminação interior iria exigir-me um grande tributo, porque anelava por viver como as demais pessoas, amealhar um bom pecúlio para, mais tarde, construir família e desfrutar dos favores da vida. O meu passado espiritual, porém, era muito severo, e fui constrangido a trabalhar-me para algumas adaptações à circunstância que então se apresentava...
"Eis, pois, como me iniciei no Espiritismo, através das bênçãos do sofrimento, que não soube aproveitar o quanto deveria."
O novo amigo silenciou discretamente. Passados alguns segundos de reflexão, parecendo aturdido, referiu-se:
- Rogo-lhe desculpas por haver-me disparado neste relato autobiográfico, sem dar-lhe oportunidade de uma conversação mais simpática, egoisticamente pensando no meu próprio caso. Como vê, estou aprendendo a disciplinar-me, sem conseguir silenciar os anseios do ego doentio, cumulando-o de comentários desinteressantes...
Interrompi-o, com delicadeza, explicando-lhe que sua narração me proporcionava imensa alegria, ademais da sua amizade, simples e desinteressada, que me havia recebido com amabilidade e confiança.
- Constitui-me – disse-lhe, sinceramente – um imenso prazer, iniciar os meus estudos neste Nosocômio, aprendendo, desde o primeiro momento em que aqui me apresento, lições de inapreciado valor. Sou-lhe, portanto, muito reconhecido, e agradeceria que, enquanto esperamos o nosso dirigente, que continue com a sua agradável e proveitosa narração.
Estimulado, e desculpando-se, Almério deu continuidade:
- Graças ao apoio de pessoas abnegadas na Casa Espírita, dos meus pais e do meu Guia espiritual, consegui adentrar-me na Faculdade e iniciar o curso que desejava. Concomitantemente, continuei participando das atividades da Juventude, porém, quase indiferente pelo estudo da Doutrina e a sua incorporação interior da conduta diária. O ambiente tumultuado da Faculdade, as minhas predisposições para comprometimentos na área sexual, facultaram-me compromissos perturbadores e vinculações com Entidades enfermas que enxameiam os antros de prostituição, nos motéis da moda, frequentados por semelhantes encarnados que ali dão vazão aos seus instintos primários e tendências pervertidas.
"Já participava das atividades mediúnicas, ao lado de pessoas enobrecidas e caridosas, sem que os seus exemplos repercutissem nos meus sentimentos exaltados pelo sexo em desvario e por falsa necessidade que lhe atribuía. Tornei-me, desse modo, portador de psicofonia atormentada, que o carinho dos dirigentes encarnados e espirituais tentaram a todo esforço equilibrar, mas as minhas inclinações infelizes dificultavam esse saudável empreendimento. Acredito que a generosa D. Clarice percebia o meu conflito, porém, honrada e discreta, esperava que o meu discernimento e as orientações espirituais que me chegavam em abundância me despertassem para a realidade, que não podia ser postergada.
"Foi nesse ínterim que, orando fervorosamente, supliquei auxílio aos Céus, prometendo-me alteração de conduta e vinculação mais segura com o compromisso aceito espontaneamente... E a minha oração foi ouvida, porquanto, nessa mesma semana, conheci Annette, que seria mais tarde a carinhosa esposa que me auxiliaria na educação das forças genésicas.
"O amigo deve saber quanto é importante a disciplina sexual na vivência mediúnica. Como as energias procriativas e vitais não devem ser desperdiçadas, mas canalizadas com propriedade e sabedoria. O seu uso indevido, além de produzir conexões viciosas com os Espíritos enfermos e vampirizadores, debilita os centros de captação psíquica, dificultando o correto exercício da faculdade. O casamento, portanto, constituiu-me verdadeira dádiva de Deus, que me impeliu a uma conduta melhor em intercâmbio enobrecido.
"As lutas prosseguiram com certa harmonia, até quando me diplomei e consorciei-me com a mulher amada. O nosso relacionamento foi muito equilibrado e, conhecedora dos meus compromissos, Annette não teve qualquer dificuldade em acompanhar-me aos estudos espíritas e participar das reuniões doutrinárias, a princípio, e depois, das sessões práticas e de socorro espiritual aos desencarnados."
Almério empalideceu subitamente, e percebi-lhe uma leve sudorese na testa.
Preocupado, interroguei-lhe se estava sentindo-se mal, ao que respondeu:
- Encontro-me bem, muito obrigado! É que me acerco dos momentos graves da narrativa, e sinto-me constrangido. Afinal, o amigo não me conhece, e eu o bombardeio com uma narrativa tão pessoal e íntima, que certamente o surpreende e o desagrada. Com certeza, é descortesia de minha parte o que lhe estou fazendo, quando deveria estar apresentando-lhe alguns dos admiráveis programas de nosso Hospital-santuário.
Toquei-lhe o ombro afavelmente, animando-o a continuar, não porque estivesse picado pela curiosidade doentia, mas porque senti que lhe fazia bem a catarse, tanto quanto me era útil para o aprendizado que iria iniciar.
Narrei-lhe algumas das próprias experiências, de quando me encontrara no corpo físico, assim como dos estudos que relatei em algumas Obras psicografadas que havia enviado aos queridos viajantes terrestres, a fim de o tranquilizar, asseverando-lhe mesmo, que houvera sido a Providência que o destacara para acompanhar-me, ajudando-me a entender os sublimes mecanismos da evolução, das lutas de aprimoramento moral e das conquistas espirituais de todos nós. Por fim, expliquei-lhe que a demora em ser atendido pelo nosso abnegado Dr. Ferreira parecia proposital, ensejando-nos aprofundamento da amizade recém-iniciada.
O novo amigo sorriu, um pouco desconcertado, e anuiu, dando curso à sua muito oportuna exposição.
- Não obstante todo o empenho a que me entregava – esclareceu, com sinceridade – para a renovação interior e o desempenho das tarefas em andamento, um ano após o casamento passei a experimentar inexplicável impotência sexual, gerando-me graves conflitos e dificuldades em torno do relacionamento conjugal. Sentindo-me fracassado e sem esperanças, procurei ajuda médica, após uma grande relutância, fruto da ignorância e da conceituação machista, e o especialista nada detectou na minha constituição orgânica, que justificasse o problema, encaminhando-me a um sexólogo que, inadvertidamente, me recomendou extravagante terapia, perturbando-me além do que já me encontrava transtornado. Nesse período, o exercício mediúnico tornou-se-me penoso e angustiante, por dificuldades de concentração e de equilíbrio emocional.
"Foi quando resolvi pedir socorro ao Mentor de nossa Sociedade que, solícito, através da mediunidade sonambúlica de Eduardo, por quem se comunicava desde há muito tempo, aconselhou-me a reconquistar o equilíbrio mediante a confiança em Deus, explicando-me tratar-se de uma disfunção psicológica, em cuja raiz estava a influência perversa da minha adversária espiritual...
"Equipado com o esclarecimento oportuno, procurei reanimar-me, elucidando a esposa em torno da terapia em desdobramento, e pedindo-lhe a compreensão, que nunca me foi negada, já que sempre se conduziu como digno exemplo de companheira ideal e madura, embora contasse apenas vinte e quanto anos de idade. A tentativa de renovação interior, porém, não havendo proporcionado resultados imediatos, diminuiu de intensidade, enquanto a volúpia do desejo incontrolado, me inquietava em angústia crescente.
"Nesse período, em que a mente se encontrava agitada, passei a vivenciar sonhos eróticos, nos quais a lascívia me dominava, particularmente com uma mulher que se me apresentava, ora linda e maravilhosa, noutros momentos, desfigurada e perversa. Muitas vezes arrastava-me a antros de perversão, onde me sentia exaurir, despertando, socorrido pela esposa que percebia minha agitação e lamentos, e sentindo-me tão depauperado quão perdido em mim mesmo. Não experimentava a necessária coragem para narrar-lhe o pandemônio em que me debatia, evitando que identificasse os meus tormentos mentais... O drama prolongou-se por mais de seis meses, quando algo inusitado ocorreu."
O amigo silenciou brevemente, concatenando as ideias, após o que prosseguiu:
- Participando das reuniões mediúnicas de socorro aos desencarnados, fui instrumento de terrível comunicação, que acredito era necessária para o esclarecimento da minha provação, certamente providenciada pelos Benfeitores espirituais. Tratava-se de Entidade feminina que se dizia minha vítima, de quem abusara, explorando-a sexualmente até arruiná-la. Pior do que isso, informava que eu era casado naquela ocasião, mas vivia clandestinamente com jovens seduzidas em orgias e alucinações. Não fora ela a primeira... No entanto, havia sofrido muito sob os impositivos das minhas perversões. Duas vezes, sucessivamente, concebera, e, sentindo-se feliz pelo fato, esperava receber apoio, que lhe neguei, sem qualquer compaixão, levando-a ao abortamento insensato. Na primeira ocasião do crime, ela pôde ceder sem maior relutância, por manter a ilusão de que eu possuísse algum sentimento de afetividade e prazer em conviver ao seu lado, mesmo que fugazmente. Todavia, na segunda concepção, recusando-se ceder à minha insistência, foi levada, quase à força, quando já se encontrava no quinto mês de gravidez, para o hediondo infanticídio, que se transformou numa tragédia de alto porte. A inabilidade do médico, na clínica sórdida onde recebia as clientes infelizes, ao extrair o feto, provocou uma hemorragia, não conseguindo deter o fluxo sanguíneo, e, embora transferida de emergência para o Pronto Socorro da cidade, menos de duas horas depois seguia pela morte o destino da filhinha covardemente assassinada... No entanto, perdeu-se num dédalo de aflições sem nome. Só mais tarde, quando eu me encontrava na passada reencarnação, no período infantil, é que conseguiu, com a ajuda de alguns especialistas em obsessão, reencontrar-me, o que lhe houvera proporcionado infinito prazer. Desde então, continuou explicando, me seguia, e pretendia levar a cabo o plano de interromper-me a existência carnal, auxiliada como se encontrava por outros Espíritos a quem eu prejudicara, e que estavam igualmente dispostos a conseguir o mesmo fanal.
"A lúcida doutrinadora tudo fez para explicar-lhe o erro em que se movimentava, não havendo conseguido resultados expressivos. Envolvendo-a, por fim, após diversas tentativas de esclarecimentos, em ternura e vibrações de paz, a atormentada inimiga retirou-se do campo mediúnico em que se comunicava. Mas não se desvinculou de mim, porquanto, onde se encontra o devedor, aí estagia o cobrador... Terminada a reunião, fui elucidado quanto aos meus deveres imediatos em favor da libertação, beneficiando o Espírito infeliz, quanto a mim próprio. No entanto, os vícios do pretérito tornaram-se-me grilhões indestrutíveis, que eu não conseguia romper. Mantendo a mente aturdida pelos desejos que o corpo não atendia, lentamente derrapei em perigosa depressão, que se tornou grave, graças às reações que me acometiam, maltratando a família, os amigos, e deixando-me sucumbir cada dia mais, ao ponto de recusar-me prosseguir nas atividades espirituais e profissionais, mergulhando no fosso profundo e escuro da subjugação, que poderia ter sido evitada, caso me houvesse resolvido pela luta."
Novamente interrompeu a história. Respirou, quase penosamente, e vendo-o sofrido, propus-lhe que deixasse para próximo encontro a conclusão do seu drama, ao que ele redarguiu:
- Apesar da angústia que me produz a lembrança, desta vez, face a espontaneidade com que brotam da alma as evocações, experimento um certo bem-estar, como se me conscientizasse em definitivo dos graves erros, sem escamoteamento das próprias responsabilidades, nem fugas injustificáveis do enfrentamento, que são passos decisivos para o recomeço em clima de renovação legítima.
Sorriu, ligeiramente, e ante a minha anuência com um movimento simples da cabeça, concluiu:
- Naquele transe, sob a indução cruel, que me houvera conduzido ao transtorno psicótico-maníaco-depressivo, em uma noite de alucinação, porquanto podia ver a mulher-verdugo de minha existência e os seus asseclas, foi induzido a ingerir algumas drágeas de sonífero, quase automaticamente, sem qualquer reflexão, a fim de apagar da mente aqueles terríveis pesadelos e libertar-me dos vergonhosos doestos que me atiravam à face, humilhando-me, escarnecendo-me, e sempre mais me ameaçando. À medida que as substâncias passaram a atuar no meu organismo, um cruel torpor e enregelamento tomou-me todo, produzindo-me a parada cardíaca, e a desencarnação...
"Muito difícil explicar os sofrimentos que então passei a experimentar. No princípio, era o pesadelo de morrer-e-não-estar-morto, a vida sem vida, as sensações da matéria em decomposição e a crua perseguição que não cessava. Não saberia dizer por quanto tempo estive sob as torpes e excruciantes vinganças daqueles irmãos mais desditosos. As preces da esposa sofrida, dos meus genitores e dos amigos da Instituição religiosa, passaram, então, a alcançar-me como orvalho refrescante no tórrido padecimento que não diminuía. Um dia, que ainda não posso identificar, senti-me sair do antro para onde fora levado pelas mãos perversas que me induziram ao suicídio, embora sem a minha concordância, o que representava um atenuante para a desdita, passando a dormir sem a presença dos sicários, e a despertar, para logo adormecer, até que a memória e o discernimento ressurgiram, auxiliando-me no processo de recuperação. Graças a Deus e aos Bons Espíritos, aos corações amigos e caridosos, aqui me encontro abraçando um novo trabalho com vistas ao futuro, que a Terra-mãe me concederá, pela nímia misericórdia do Céu.
"Tendo orado em favor daqueles que sofreram a minha perversão e loucura, propondo-me espiritualmente socorrê-los, quando as circunstâncias o permitirem. Somente o perdão com a reconciliação real, edificando os sentimentos das vítimas com os algozes, conseguirá produzir a paz e a lídima fraternidade."
Almério agora, quando encerrava a narração, apresentava-se corado, e sorria, exteriorizando real alegria. Deixava-me a impressão que houvera retirado um peso da consciência e, talvez, por primeira vez, encarara-se sem constrangimento nem desculpas em relação aos atos conturbadores praticados.
Agradeci-lhe a confiança e a gentileza de oferecer-me a sua história, que me proporcionaria muito material para reflexões, e pedi-lhe, ato contínuo, que durante o meu estágio naquele Nosocômio, quanto lhe permitissem os deveres, que eu gostaria de contar com a sua companhia fraterna para conversações, troca de opiniões e mesmo sua ajuda, de que ali habitava, há muito tempo, o que me seria muito valioso.
Ele não se fez de rogado, e, num gesto muito amigo, abraçou-me, exteriorizando gratidão e votos de muito êxito.
Encontrávamo-nos abordando outros temas, quando fui chamado nominalmente, para o encontro com o Dr. Ignácio, que se encontrava aguardando-me. Despedi-me do jovem companheiro e segui ao gabinete onde teria a entrevista com o nobre psiquiatra.


Comentário do autor do blog:

As reflexões trazidas nesta história são muitas, mas, a nosso ver, a tônica que prevalece nos acertos e desacertos da figura de Almério – e que poderia ser com qualquer um de nós – é justamente o embate entre a realidade interna dele frequentemente a apontar para a revivescência de experiências libidinosas já sedimentadas em sua estrutura interior contra os incessantes convites conscienciais e espirituais para a mudança de postura em busca de um viver mais responsável para consigo e para com os outros. Foram-lhe dados alertas espirituais e oportunidades de trabalho como elementos estimuladores de sua reforma íntima, que compete a cada qual realizar por si mesmo, contudo, logo abandonada quando da intensificação da carga de experiências mais desafiadoras por que tinha que passar.
Num caso como este é impossível deixar de lembrar a passagem do Sermão da Montanha em que Jesus nos ensina sobre a porta estreita: "Entrai pela porta estreita. Pois larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição – e são muitos os que entram por ela. Quão apertada é a porta e quão estreito o caminho que conduz à vida! – e poucos são os que acertam com ele." (Evangelho Segundo Mateus, cap. 7, vers. 13/14)
Largo é o caminho que leva à perdição porque ainda largo é o nosso primitivismo animal, ou seja, grande é o poder que ainda damos ao homem velho em prejuízo do homem novo, espiritualmente renovado. Matéria versus espiritual ou, no dizer de Jesus, Mamon versus Deus. Tristemente em grande parte das vezes vence o primeiro.
Para quem vê, como no caso de Almério, as inumeráveis oportunidades dadas pela vida para a construção de um destino mais glorioso e percebe que todas foram jogadas fora em obediência a um instinto ainda primitivo e dominador, lamenta-se à semelhança do jogador que no último momento do jogo displicentemente perde a chance de reverter o resultado a seu favor. A força do que ainda somos suplanta, por falta de determinação e fé, a força do que queremos ser. Neste caso, só nos resta ouvir o lamento do Cristo: "Ó geração sem fé e perversa! Até quando estarei convosco e sofrerei com vossa incredulidade?" (Evangelho Segundo Lucas, cap. 9, vers. 41), para depois confiarmos na misericórdia divina que sempre nos socorre e dá novas oportunidades de recomeço no momento que se mostrar mais adequado.


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Sombra que se fez impermeável à luz




Em uma grande cidade um homem caminha desesperado. Seu maior anseio é uma corda. Na vida já tinha ambicionado coisas maiores e mais valorosas. Tinha sonhos de glória, dinheiro, posição. Mas tão inconstante quanto as dunas de areia de um deserto, são os interesses humanos.
Não queria mais nada disso. Só uma corda era o que desejava e nada mais. Em vista dos grandiosos e maravilhosos sonhos anteriores, uma medíocre corda era a solução para tudo o que ansiava naquele momento.
Para que viver, se nem sua consciência era mais sua amiga? Tinha perdido todos os amigos e não encontrava consolo nem em si mesmo.
Dor, culpa, vergonha, solidão. Só quem parecia lhe estender os braços convidativos era a morte. Sabia que a morte não era amiga de ninguém. Nunca foi. Mas era a única a demonstrar algum interesse por sua sofrida alma. E imaginar que há tão pouco tempo estava rodeado de poderosos. Todos eles subordinados ao seu poder de escolha.  Uma única palavra sua era, como de fato o foi, capaz de decidir o destino de muitos, poderosos e não poderosos.
Contudo, como todo ser humano é falho, no momento decisivo não se apercebeu da imensa repercussão que a escolha poderia causar em si próprio e nos outros. Queria governar os acontecimentos, só que não foi capaz de prever todas as consequências a repercutirem de seu ato. Tivera poder para causar um incêndio, mas fora incapaz de apagá-lo. 
Miséria! Miséria! Miséria! Das maiores, a rainha é a morte. Então por que não pedir a ela que trouxesse a solução para todos os males, uma vez que todas as iniquidades do mundo se curvam diante de seu torpe trono?
Suicídio era o caminho e uma corda, o meio. Segundo erro grave cometido em um mesmo dia, pois, se tivesse atentado para a sabedoria da vida, perceberia que até a corda em seu trágico mister daquele momento precisava do apoio de algo para funcionar. Do mesmo modo que a miséria tão comum a seres falíveis como nós humanos precisa do apoio seguro e exclusivo da misericórdia.
Tão fácil como achar incompreensão entre criminosos, foi encontrar aquela cujo nó bem feito parecia ser a que de fato desataria os nós das escolhas equivocadas feitas até aquele momento.
Escolheu um lugar ermo. Como um erro parece sempre levar a um outro erro, avistou uma árvore, normalmente símbolo de vida. O seu gesto equivocado não teimava só em se repetir descontroladamente dentro de sua cabeça. Também se repetia em suas atitudes como um ciclo vicioso do erro. O seu equívoco causaria a morte de um exemplo de vida e agora para si mesmo buscava a morte embaixo de um símbolo da vida. Mas o que é erro para os homens, é acerto para Deus. A árvore serviria de sentinela, a lembrá-lo que a vida sempre reinará soberana mesmo em presença dos equívocos humanos. 
Judas Iscariotes se enforca. Sim, ele mesmo! Incapaz que era, naquele momento, de perceber que, não muito distante, a Misericórdia Viva, o Cristo, sofria com o resultado de sua traição, não tanto no corpo como seria de se esperar, mas principalmente na alma por saber que um filho de seu amor havia escolhido a morte ao invés da luz revigorante de sua misericórdia. Ele que tantas mostras de seu amor incondicional havia dado em presença do apóstolo apóstata.
Quando o Senhor, na cruz, disse: “Pai, perdoai, pois eles não sabem o que fazem”, Judas também estava sendo lembrado. Maior do que a dor de mil pregos a rasgarem a carne, foi a dor da Misericórdia em pessoa, impotente que estava naquele momento, ao ver um filho cair no abismo e não poder ir junto para amparar a queda.
Mas ao contrário do egoísmo, a Misericórdia não tem memória curta. Nada que é objeto de seu amor fica esquecido ou perdido. O que caiu será levantado; o que buscou a morte, encontrará a Vida, ainda que por caminhos dolorosos. Pois, assim determina o Amor infinito e eterno do sempre compassivo Autor de Vida.
Muita paz.


Prece nas aflições da vida - O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XXVIII.

Deus Todo-Poderoso, que vedes as nossas misérias, dignai-Vos ouvir favoravelmente o pedido que Vos faço neste momento. Se for inconveniente o meu pedido, perdoai-me; e se for justo e útil aos vossos olhos, que os Bons Espíritos, executores de Vossos desígnios, venham ajudar-me na realização. Como quer que seja, meu Deus, seja feita a Vossa vontade. Se os meus desejos não forem atendidos, é que desejais experimentar-me, e submeto-me sem murmurar. Fazei que eu não me desanime de maneira alguma, e que nem a minha fé, nem a minha resignação sejam abaladas. 

(Formular o pedido)


Recado da Esperança - Espírito Maria Dolores - pelo médium Chico Xavier


RECADO DA ESPERANÇA




As nuvens escuras nunca apagarão o azul do céu.
Nas provações que te surjam
Ergue a fronte e segue
         [à frente.
Aceita, firme e contente,
O caminho tal qual é...
De pensamento tranquilo,
Não pares. Segue e não
          [temas,
Sem crises e sem problemas
Ninguém sabe se tem fé.


Contratempo, desencanto,
Infortúnio, prejuízo,
Tribulações de improviso,
Dificuldades no lar...
Tudo isso se resume
Na escola que nos ensina
A entender a Lei Divina
Que nos impele a marchar.

Esquece os males do mundo,
Mesmo os mais rudes e
         [amargos,
Abraça os próprios encargos
Por íntimos cireneus;
Onde estiveres, relembra
Que o mérito vem da prova,
Que o sofrimento renova
E a dor é bênção de Deus.


Camilo Castelo Branco


Mas uma consequência da qual o suicida não pode escapar, é o desapontamento”. Questão 957 de O Livro dos Espíritos.


Muito tempo depois, mais de 20 anos decorridos, solicitado a dizer sobre o seu suicídio, eis o que o espírito de Camilo Castelo Branco, escritor português, relatou:

“Equivale a pedirem-me sinistra sinfonia para a ópera do Horrível.
Não sei dizer quanto é preciso; e tudo que disser não será, por assaz deficiente, a sombra de verdade necessária. Mas não recuso o meu contingente, nem quero perder a ocasião, que me oferecem, de mais uma vez bradar aos incautos que se defendam de cair no abismo em que me precipitei, em aziaga hora.
Supõe-se aí que o suicídio é a morte.
Alguns creem que na devolução das carnes verminadas à podridão, está a extinção da vida e do sofrimento.
Para esses é a libertação, a quebra da grilheta chumbada ao artelho de forçado do martírio; como para outros é só remédio pronto a embaraços inextricáveis de momento.
Há quem o creia cômodo fecho a uma vida de angústias; como há quem nele veja fácil alçapão por onde se pode fugir às chicotadas do Destino.
Para uns é cura radical de dores; para outros astuciosa maneira de fugir à sorte adversa.
Alguns o têm como remate forçado e benemérito de desilusões; outros o buscam como portaria franca para a região da Esperança.
Aos descrentes é finalização lógica para dificuldades e desgostos; aos infelizes recurso último do desespero acovardado.
Uns creem conquistar com ele a eterna paz do Nada: o sono tranquilo de que não se acorda mais; outros imaginam-no alavanca irresistível para forçar a porta do Esquecimento.
Querem uns, com ele, esmagar remorsos de justiceiro pungir; querem outros, com ele, escalar mais rapidamente o Céu.
E a todos enganam as tredas e alucinadoras miragens da Tentação.
Não é a morte; não há libertação; não constitui remédio.
Não extingue angústias, nem abre caminho à fuga redentora das açoitadas do destino vingador.
Não sara dores, nem acaudilha deserções.
Não põe fim às desilusões da alma, nem encaminha visionários às sonhadas bandas da Esperança.
Não dá, para os descrentes, razão à sua estultícia; nem aos infelizes consolação permeadora do seu desespero pusilânime.
Não conduz o mísero à suprema paz do Nada, nem o acalenta no eterno sono incacordável.
Não abre aos tristes a letárgica região do Olvido; não dá aos remorseadores  mordaça para calar a grita da consciência; nem ajuda aos crentes a tomar de assalto o Céu.
Para todos o suicídio é o desengano.
Simulando defender do infortúnio, impele violentamente ao salto-mortal para o Horror.
Não sei de nada que lhe seja comparável.
Nem a blasfêmia, que eu suponho a suprema ofensa à Razão; nem o fratricídio, que eu acredito a suprema ofensa à Humanidade; nem o matricídio, que eu presumo a suprema ofensa à Natureza.
O suicídio é a suprema ofensa a Deus.
Nele, as dores redobram de intensidade; a alma impregna-se de desesperos, que parecem infindáveis no tempo e na angústia.
Constitui a cristalização da Dor; a aflição da ansiedade que nada satisfaz; a dentada triturante e perene do Remorso.
Eu fui suicida. Querendo fugir à cegueira dos olhos, fui mergulhar-me na cegueira da alma.
Pensando furtar-me à negrura que cobria o meu viver, fui viver na treva onde os suicidas curtem raivas, sem remorso; e blasfemam quando suplicam.
Fui viver na pávida região onde os réprobos se mordem e agatanham; onde gargalham, de olhares em fogo e rangendo os dentes, os furiosos com juízo.
Aonde o suicídio arroja os seus mártires, num repelão brutal de louco, não penetra a Luz de Deus, nem a carícia da Esperança.
Lá, ruge-se, geme-se, chora-se, soluça-se, ulula-se, blasfema-se, pragueja-se e maldiz-se. Não existe paz; não se sabe, nem se pode orar.
É a caverna do Sofrimento, de que Dante só vislumbrou o portal.
Sei que rábicas convulsões lá me sacudiram; que lágrimas ferventes queimaram meus olhos cegos; mas não adrega dizê-las.
As dores descomunais não se descrevem. Sentem-se, no seu ecúleo titânico, mas não se definem. Entram pelo infinito; são o inenarrável; são o incompreensível.
Quando o suicida supõe trancar, com a morte, a porta da Agonia, abre o ciclo infernal do Desespero.
Matando-se, não aniquila a vida; destrói, só num ato de inepta rebeldia, o meio eficaz e providencial do seu progresso; e recua, voluntariamente, a hora desejada da sua felicidade.
A vida, além do suicídio, pertence à fase humana que os homens da Terra não conhecem, para que não têm ideias apropriadas, e a que a necessidade não criou ainda palavras representativas. De umas e outras, todas as que aí mais dolorida, mais trágica e mais sugestivamente pintem o aspecto do Horrível, não dão a impressão esfumada dos tormentos que o suicida entra a curtir, quando, por ingênua ou velhaca presunção, supõe conquistar, por uma violência da sua vontade, o termo do seu sofrer.
Isto é assim. É bom? É mau? É assim. É como é, e, como é, temos de aceitá-lo.
É possível que por aí haja quem fizesse coisa mais de perfeição; mas Deus esqueceu-se, lamentavelmente, de os consultar antes de completar a sua obra.
Foi uma falta grave; mas já vem tarde a grita indignada dos mestres desse mundo, para remediá-la.
Ponham de lado prosápias de emendar o que está feito.
Guardem as sabedorias, que podem melhor servir para adubar manhas e poucas-vergonhas nos conclaves palreiros da asnice em que aí pontificam.
Conjuro os que me lerem a que me creiam sem experimentar.
O desastre será irremediável, se não o fizerem.
Aceitem, aceitem o fato tal ele é.
Aceitem a vida como a puderem fazer. Corrijam-na, corrigindo-se. Amoldem-se às situações, ainda as mais desesperadoras.
A tudo mais Deus provê de remédio; mas Ele é que é o juiz da oportunidade de aplicá-lo.
Aceitem as dores, a cegueira, as deformações, as aberrações, o desespero, as perseguições, a desgraça, a fome, a desonra, a degradação, a ignomínia, a lama, tudo, tudo que de mau, de injusto, ou de rastejante em desprezo a Terra lhes possa dar, que são ainda coisas excelentes em desiludida comparação ao que de melhor possam chegar, pelo caminho do suicídio.”